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Campina Grande é high tech sim senhor

Catarina Lurcrécia
DA EQUIPE DO DIÁRIO

Cidade abriga 50 empresas de informática, que produzem soft e hardware, além de faturarem R$ 25mi/ano

Quando a polícia da Espanha liga o computador e aciona o sistema atrás de pistas de um fugitivo, o alvo da perseguição dá início a uma corrida para tentar se manter bem escondido, mas do lado de cá do Atlântico, em Campina Grande, na Paraíba, um homem está atento a tudo. Alexandre Moura, 40 anos, é diretor da Light Infocon, a empresa que desenvolveu o LightBase, um banco de dados textual que ajuda a polícia espanhola a trabalhar. A Infocon é uma das empresas que tem espalhado a fama de Campina Grande como um dos mais importantes pólos emergentes de tecnologia do mundo. A cidade, cravada no agreste paraibano, já abriga 50 empresas de informática produtoras de software e hardware, que empregam 500 pessoas de nível superior e juntas faturam R$ 25 milhões por ano. A tecnologia, que responde por 20% da economia do município, projeta o salário médio da população para R$ 2,5 mil, o dobro do restante da região.

O engenheiro Alexandre Moura é pioneiro. Montou a fábrica em 1983 e de lá para cá a Light Infocon não pára de crescer. Tem clientes em todo o País, um escritório em Brasília, uma representação na Espanha outra nos Estados Unidos. O faturamento anual já chega a R$ 3,5 milhões. No primeiro semestre deste ano, a empresa deu as costas à crise e já cresceu 28% em relação ao mesmo período do ano passado.

O exemplo se multiplica e a cidade, pouco a pouco, quebra preconceitos dentro e fora do País e muda de cara com a força do seu capital intelectual. A Newsweek, por exemplo, incluiu Campina na restrita lista das nove cidades mais promissoras do planeta em termos de tecnologia. Campina foi incluída no mesmo ranking de Ohio e Barcelona.

O empreendedorismo é marca registrada na cidade. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o centro do Programa Nacional de Software para Exportação (Softex Genesis de Campina Grande) é um ninho de novos talentos.

Rodrigo Figueiredo de Albuquerque e Williames Alves Dantas sabem disso. Eles fogem a regra da maioria dos recém formados do País. Antes mesmo de sair da universidade, onde cursaram a Ciência da Computação, já sentiam o gostinho de ter o próprio negócio. Filhotes do Genesis, fizeram o curso e partiram para o mercado. O software que desenvolveram ajuda donos de padarias a fazerem um controle mais eficaz de seus negócios. O resultado é animador. Os meninos querem chegar ao final do ano com 20 clientes e com um faturamento de fazer inveja a muito marmanjo: R$ 130 mil.

Mais de 100 trabalhos já foram apresentados, sob a forma de plano de negócios, e 30 deles foram aprovados. Rodrigo e Williames estão na lista. Com o projeto aprovado, a empresa entra em fase de incubação e durante dois anos recebe ajuda de custo e todo o apoio técnico. Os dois jovens empreendedores já estão saindo desta fase e se preparam para caminhar com as próprias pernas no mundo dos negócios.

Projetos como este levam a fama da cidade para longe. Campina Grande está recepcionando uma missão de empresários chineses. Não, eles não querem aprender os passos do forró.Estão interessados na tecnologia e nos softwares made in Paraíba.

Apel disputa mercado

A indústria de software de Campina Grande não é a única que derruba fronteiras e conquista novos mercados. A Apel, que evoluiu de uma tese de mestrado para uma indústria eletroeletrônica, briga de igual para igual com multinacionais e hoje é líder na venda de equipamentos para emissoras de rádio, com 70% de participação do mercado nacional. De 4.200 emissoras instaladas no País, 3000 são clientes da empresa.

Ousada, mergulhou em outros nichos e guarda no currículo contratos de fazer inveja a muitos concorrentes. Foi de lá, no interior da Paraíba, que foi produzido todo o sistema de som para a Casa Rosada, na Argentina.

O primeiro salto da Apel para o sucesso foi impulsionado pelo Mousike, sistema de transmissão de dados através de linhas telefônicas. O equipamento foi adotado pela Telebras. dos importados.

A partir do Mousike, a Apel, fundada em 1975, desenvolveu a mais completa linha de equipamentos para emissoras de Rádio. São quase trinta produtos. A alta do dólar ajudou a empresa. Componentes eletrônicos, antes importados, ficaram caros demais e o dono do negócio, José Clóvis Vidal, desenvolveu a sua própria tecnologia para driblar a dificuldade imposta pelo câmbio.

Do rádio para os trens. Quem circula nos mais movimentados metrôs do País, como o de São Paulo, recebe informações por um sistema de sonorização desenvolvido na empresa de Campina Grande. O sistema é controlado por microcomputadores,permitindo o uso de controle remoto quando acoplado a uma rede de computadores. O próximo é o metrô de Belo Horizonte, onde venceu a concorrência e desbancou multinacionais.

Algodão ganha cores

Campina Grande não vive só de hardware e software. Também faz moda. A do algodão colorido, que emplacou nas passarelas mais badaladas do País, já está sendo exportada e começa a resgatar a cultura algodoeira dizimada pela praga do bicudo na Paraíba. Os modelos da grife Natural Fashion, fabricadas com um produto ecologicamente correto por um consórcio de dez empresas de confecção e decoração, conquista até os mercados mais sisudos. As roupas vão ocupar cinco páginas da próxima edição do Hess Natur..

Por trás do sucesso da Natural Fashion, está a tecnologia. O algodão colorido - nas cores bege e cru - desenvolvido na Embrapa é um produto ecologicamente correto porque dispensa qualquer espécie de tingimento.

A Embrapa fez a pesquisa do algodão e incentiva a produção.Compra o algodão dos produtores, que é beneficiado pela indústria têxtil Coteminas. Daí sai a matéria-prima para abastecer o consórcio. Os modelos que projetaram Campina Grande no mundo fashion levam a assinatura do estilista Angelo Rafael, do sistema Fiep/Senai.

Até agora foram desenvolvidas duas cores do algodão natural, mas a Embrapa já está debruçada nas pesquisas para fazer surgir nos campos o algodão verde. Foram colhidas na última safra 35 toneladas do algodão. Tudo isso será transformado em produtos da grife Natural Fashion.

A Entre Fios, única empresa que fábrica produtos de decoração do consórcio, já duplicou a área física e tem que se esforçar para dar conta de tantos pedidos. O mesmo acontece na Mix. Os negócios vão muito bem. A produção do consórcio é de 30 mil peças por mês.

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