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Oásis high tech no agreste

Campina Grande, no interior da Paraíba, é citada em revista americana como um dos pólos tecnológicos emergentes do planeta

Revista Época

A primeira tentativa foi rifar um boi, depois sacrificado num churrasco degustado pela sociedade paraibana. Meses depois, rifou-se um fusca zero-quilômetro. Após sucessivas campanhas, bingos e chás beneficentes, os líderes do movimento atingiram o objetivo: conseguir US$ 500 mil para dar um computador à cidade de Campina Grande, agreste da Paraíba, a 120 quilômetros de João Pessoa. A máquina ultramoderna chegou em 1967. Foi o primeiro computador do Nordeste – ponto de partida para investimentos na formação de professores da região. A engenhoca, hoje sucata nos porões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tornou-se a relíquia de uma revolução.

Famosa por organizar uma das maiores festas de São João do país, Campina Grande é hoje um oásis de prosperidade. Não exatamente pela tradição junina, mas pela tecnologia. Citada pela revista americana Newsweek como um dos mais promissores pólos tecnológicos do mundo, a cidade paraibana abriga dezenas de indústrias de informática e eletrônica e tem Produto Interno Bruto per capita duas vezes superior à média nordestina.

A universidade é o berço do pólo tecnológico. No Estado de São Paulo há um professor com mestrado ou doutorado por 1.356 habitantes. Nas instalações da UFPB em Campina Grande trabalham 416 mestres e doutores – um por 865 habitantes. Mais da metade deles está nas áreas de engenharia e computação. Nesses setores formam-se anualmente 250 novos profissionais. E 470 cursam pós-graduação. O mercado local não absorve a mão-de-obra, exportada para as capitais. Mas não falta criatividade para desenvolver projetos e diminuir o êxodo de “cérebros”. Desde 1997, o curso de “empreendedorismo” tornou-se obrigatório no currículo de informática da UFPB para o recém-formado montar o próprio negócio. Mais de 1.400 alunos já passaram pelo treinamento e 13 deles ocupam hoje as salas do Poligene, berçário de empresas de software e serviços mantido pelo governo federal.

O paraibano Rodrigo Figueiredo de Albuquerque, de 22 anos, receberá o diploma de ciências da computação na próxima semana e trabalha na automação de padarias. “Estamos mudando a cabeça dos comerciantes”, afirma o pesquisador, que desenvolveu um software para reduzir desperdícios e controlar com eficiência os estabelecimentos. O plano de Rodrigo é faturar R$ 13 mil mensais com o sócio, William Dantas, de 25 anos, colega da universidade. Na sala ao lado, a engenheira eletrônica Rosângela Vilar, de 47 anos, trocou o Maranhão por Campina Grande. Por meio da internet, conheceu o analista de sistemas carioca Marcos Espínola, de 34 anos, que há dois se mudou para a Paraíba. Casaram-se, montaram juntos a empresa Solution Info, voltada para serviços de coleta de informações na web.

As empresas já nascem pensando em conquistar outros mercados”, explica o engenheiro Alexandre Moura, de 40 anos, dono da Light Infocon, a primeira fábrica de software instalada em Campina Grande, em 1983. Pernambucano, mudou de cidade em busca de ensino de bom nível. Hoje emprega 30 técnicos e fatura R$ 3,5 milhões por ano. Produz programas de computador para gerenciamento de som, imagem e texto. “Em tecnologia, o importante é estar perto da mão-de-obra farta, não do mercado consumidor”, diz o empresário. A fartura de profissionais atrai grandes empresas consumidoras de tecnologia, que geram mais de US$ 100 milhões de receita anual em Campina Grande. A Coteminas mantém na cidade o maior parque têxtil do Brasil. Na década de 40, o município foi o segundo maior pólo comercial de algodão do mundo, atrás somente de Liverpool, na Inglaterra. O cultivo foi dizimado pela praga do bicudo. Por intermédio da tecnologia agrícola, a produção de plumas está sendo retomada. Com uma novidade: dez empresas paraibanas reuniram-se em consórcio para produzir vestuário utilizando algodão que já nasce colorido. Técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em Campina Grande melhoraram geneticamente a qualidade das fibras, possibilitando o processamento industrial em máquinas de fiação. Ecológicas por não usar tintas, as roupas confeccionadas na Paraíba terão o selo do Greenpeace. As primeiras remessas de pijamas e camisetas serão exportadas no segundo semestre.

A cidade torna-se cosmopolita. No bairro Bodocongó, a Rua João Julião Martins abriga as famílias da maior parte dos 16 professores vindos da Índia. Ramama Tantravahi, especializado em sensoriamento remoto, é coordenador dos cursos de graduação da universidade. A mulher, Arundhati, montou uma escola de inglês. A filha, Pallavi, de 21 anos, está no último ano de computação e faz estágio numa empresa de software. A cultura acadêmica une as famílias. O vizinho Hans Gheyi, de 59 anos, rodou universidades européias e americanas e escolheu a de Campina Grande. Pesquisador de métodos para recuperar solos estragados pela salinização, comum no semi-árido, o professor encontrou amplo campo de trabalho na Paraíba.

A UFPB coleciona prêmios. Em abril, o aluno Allysson Diniz, de 22 anos, ficou em primeiro lugar nacional no Provão 2000 em engenharia mecânica. No mesmo mês, cinco alunos de engenharia elétrica ganharam R$ 40 mil da Motorola pelo projeto de uma antena inteligente. O dispositivo reduz o impacto das ondas eletromagnéticas dos celulares no corpo humano e aumenta a vida útil da bateria. Em breve, a tecnologia gerada no agreste nordestino estará disponível em celulares do mundo inteiro.

Sérgio Adeodato

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